Os ignorantes

A arte existe para que a verdade não nos destrua. Já dizia Nietzsche.
Falemos então sobre teatro. Dentre as inúmeras definições sobre essa arte, ainda não decidi qual delas mais me agrada. Talvez todas me agradem porque mesmo que contraditórias, possuem lá o seu sentido. E mesmo que repetidas, a cada fase da vida, soam diferente aos meus ouvidos.

Aconteceu com Hamlet. Como a grande maioria, eu já sabia a história quando assisti a peça. Mas, a cada montagem, a mesma fala me surpreendia como se fosse novidade.

Há algumas semanas assisti ao monólogo “Os Ignorantes”, com Pedro Cardoso. Conhecido pelo talento na comédia, Cardoso fala bem humoradamente sobre a ignorância dos inteligentes e a inteligência que há nos ignorantes. Entre risos, cordéis, músicas e lágrimas, a arte assume seu poder de reflexão e dificilmente você sairá do teatro da mesma forma que entrou. Mas, um dos momentos que mais me chamou a atenção aconteceu ainda antes do início do espetáculo.

Carioca, Pedro Cardoso se apresenta pontualmente para a platéia e ali, começa uma conversa, alegando que estaria apenas esperando as pessoas que se atrasam com o trânsito de São Paulo. Então conta histórias, como quem conversa em uma mesa de bar. Dentre elas, narra o dia em que foi parado pela blitz do bafômetro e fingiu estar completamente bêbado. Pedro não bebe, mas é bom ator.

A platéia ri, uníssona. Pedro faz micagens, anda de um lado para o outro, imita os policiais confusos com o resultado do bafômetro e perambula como um bêbado no palco. A platéia vai ao delírio. E no auge das gargalhadas, Pedro para no centro do palco e diz seriamente que aquilo nunca aconteceu. Mas que ele sempre teve vontade de fazer. E que tudo aquilo que ele imaginava fazer e não tinha espaço na vida real, cabia perfeitamente no teatro.

O conceito é simples, mas sem a história, empobrece. O teatro precisa dele próprio para definir-se. E nós precisamos dele, para descobrirmo-nos.

Por isso, apoio todas as iniciativas que visam democratizar a arte, para que ela chegue à distâncias inimagináveis dentro da nossa realidadezinha emoldurada. Um desses projetos, se chama Teatro para Alguém. Nele, a peça é filmada e disponibilizada na internet, com um grupo de atores experientes que não deixa a desejar.

Será que dá certo?

Quando entrevistei Dan Stulbach e perguntei sobre o que ele achava do espetáculo “Jogando no Quintal”, Stulbach me contou que gostava do tempo de ação, da integração com o público e que, possivelmente se fosse para a televisão, não teria a mesma graça. Enquanto filmo a entrevista, ele pega um copo de água na mesa e joga para o alto, me explicando que aquilo na minha frente, me fazia sentir parte da cena, me tocando diretamente. Quando a mesma cena é vista pela tela da câmera, parecerá mais lenta e impessoal, me tornando apenas uma receptora. Stulbach apareceria solitário jogando um copo para o alto e, se a cena fosse mais longa, vista através das lentes, me cansaria.

Não precisamos ir longe para lembrar de exemplos cotidianos. Participar de uma cerimônia de casamento envolve e emociona, mas vê-la no vídeo, cansa boa parte da família.

E não é que dá?

A estranheza inicial ao assistir uma peça teatral pelo computador e a aparente desvantagem é deixada de lado quando pensamos nas inúmeras vantagens do meio. Enquanto escrevo, alguém em uma pequena sala de aula da zona rural do interior do interior deste país pode estar acessando o site e tendo seu primeiro encontro com o teatro.

Outra grande vantagem é, sem dúvida, a gratuidade. O teatro ainda tem público elitizado porque seu custo é alto, consequentemente, seu ingresso também. O teatro alternativo, por muitas vezes acaba extinto por não sustentar-se. Já o teatro virtual, dispensa boa parte dos recursos, mantendo a casa cheia com apresentações 24h por dia. Prático, não?

Então clique aqui e tenha um bom espetáculo!

obs. O espetáculo “Os Ignorantes” já não está mais em cartaz. Mas se você quiser ler a peça, o livro é vendido na livraria Saraiva  e na livraria Cultura.

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