Lei Áurea Paulistana

E a escravatura mascarada.

São 19:45 em um apartamento da Vila Nova Conceição. A família se reúne para jantar. A tia veste um cardigã Brooksfield Donna, recém comprado para a ocasião.

“Não que eu não seja a favor das cotas raciais, não. Acho que preto tem que estudar com branco. E branco com preto. Acho até que fica bem clássico, quase um Channel. Pena que não há mais cores no Brasil, seria lindo ter um off-white, um red bem vivo, um amarelo esmeralda. Um tor-sur-ton único!

Mas você há de convir comigo que a cota é, por si só, racista. Veja bem, julgar pela cor da pele quem terá privilégios no lugar de dar atenção apenas ao intelecto…não dá para apoiar uma coisa dessas. Se as escolas públicas não tem boa educação isso é coisa do governo. Mas isso ninguém fala. Ninguém liga. Se tem festa e dentadura nova, esse bando de ignorantes dá risada…”

O tio, recém chegado de uma temporada na Itália, completa:

“Brasileiro gosta é de julgar quem tem dinheiro. Não se pode ter um pouco mais que você está sujeito a todo tipo de comentário. O governo aí, desviando milhões, pagando festas em iates com o meu dinheiro e o povo falando da minha nova Cherokee, sabe? Cherokee essa que, aliás, tive que gastar o dobro para mandar blindar porque a violência não me deixa parar em um semáforo sequer sem ser abordado. Outro dia mesmo estava voltando de uma degustação de vinhos em Higienópolis e um ranhentinho de uns cinco anos de idade se pendurou no meu retrovisor para pedir dinheiro. É claro que não dei. Isso é coisa de mãe vagabunda que faz um monte de filhos e depois coloca as crianças no farol para a gente ficar com dó e dar dinheiro para ela comprar cachaça e fazer mais criança. Trabalhar que é bom ninguém quer, não é mesmo?”

O primo de 5 anos de idade, brinca sozinho em seu Ipad, enquanto ouve a mãe retomar o assunto:

“Está cada vez pior. O governo sustentando esse monte de marmanjo enquanto pinta essas ciclofaixas sem nem ao menos perguntar se a gente quer. Já viu como está Moema? Ontem mesmo não consegui estacionar para ir na Bacio di Latte com as crianças. Tivemos que ir na Marie Madaleine mesmo, porque é o único lugar que se deu ao trabalho de deixar manobristas na porta.”

A avó vai até a porta, receber o novo namorado da neta, em sua primeira apresentação à família. Olhares treinados fotografam as características do rapaz. E apesar da polidez e simpatia da avó, o primo mais velho também quer recebe-lo:

“Gostei do relógio! É Armani?” – o rapaz faz que não com a cabeça, o primo desconfia de que, por ventura, aquele não passe de um relógio sem marca. Pede para ver como ficaria em seu próprio pulso, enquanto discursa:

“Hoje em dia tem que se tomar cuidado com tudo o que compramos, sabe como é né…quando não é trabalho escravo, estamos sustentando a máfia chinesa. E o governo sabe disso, claro…por isso nos cobra os olhos da cara em impostos quando o produto é bom. Acabo sempre comprando quando vou à Miami.”

Tem o aval da tia-avó.

“Mas não existe produto bom e barato…isso nunca existiu, nem na época de papai. Li na Veja que os brasileiros estão viajando cada vez mais para poder comprar coisas básicas para a casa e viver com o mínimo de dignidade. A Márcia Albuquerque mesmo, outro dia postou no Facebook que toda sexta é daqui para a Flórida para conseguir curtir o final de semana sem ter que dividir a piscina com o pessoal do clube…”

A tia fica abismada. Vira uma taça de suco de uva verde e desabafa:

“Mas essa aí sempre foi nojenta, desde o colégio…quero ver chegar no Hebraica daqui um tempo e não ser reconhecida por ninguém…depois vai chorar as pitangas de que os negócios do marido não estão indo tão bem e vai pôr a culpa no governo.”

O novo namorado pede um suco do mesmo sabor. Chamam a cozinheira para pedir que faça apenas com as uvas que foram compradas no dia. Ele adoraria dizer que a cozinheira não era negra, mas era.  Ele adoraria não  ter reparado que era noite de um domingo, mas era. Ele adoraria dizer que ela era era jovem, mas não era. E então ele pergunta se ele mesmo não pode fazer o suco para que a cozinheira seja liberada mais cedo.  Ganha a atenção das mulheres, que sobrepõem-se aos gaguejos, tentando explicar que:

“Ela precisa ficar para organizar as louças depois que jantarmos. E além do mais ela gosta de estar aqui com a gente, se não gostasse não teria aceitado. Vai ficar em casa assistindo Faustão enquanto pode ganhar dinheiro? Não é boba. Está há mais de 20 anos servindo nossa família. Quando vocês casarem já terão alguém de confiança sempre que precisarem.”

Antes que a frase mereça seu ponto final, a cozinheira abre a porta e atravessa a sala. Se debruça na poltrona para chegar aos ouvidos da patroa. Sussurra quatro ou cinco palavras.

“Mas você tem certeza?”

“Tenho. Já olhei em todos os cômodos.”

“Já tentou na padaria?”

“Já. Também liguei para o Manuel do empório que a senhora gosta…e nada.”

Sem perder a compostura, a tia anuncia que o jantar será italiano e liga para a pizzaria mais próxima. A água acabou. E a cozinheira conseguiu chegar em casa a tempo de assistir o Fantástico.

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