Quando Eu Era Vivo e a Diversidade do Cinema Nacional

Essa semana resolvi me dedicar a conferir alguns títulos nacionais que estrearam comercialmente no ano passado (em circuito limitadíssimo, como é o caso de praticamente 90% das obras de menor “apelo popular”) e vi uma porrada de coisa boa que tinha perdido. No entanto, um desses filmes me fez sentir aquela necessidade absurda de repartir o que me causou (que é o gatilho que decidi utilizar para escrever aqui no Circo). Trata-se de “Quando Eu Era Vivo” (adaptação do livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, de Lourenço Mutarelli).

Brasileiro tem complexo de vira-lata e acha que a grama do vizinho é sempre mais verde (o que se justifica em alguns casos, mas definitivamente não no que diz respeito à produção cinematográfica). O cinema nacional é um dos melhores do mundo (DO MUNDO! Em caixa alta mesmo, que é pra incomodar quem tá lendo). Só não acredita nisso quem pensa que nossos filmes se resumem ao que estreia semanalmente nos multiplexes da vida. Sem um garimpo virtual violento, a maioria esmagadora do púbico (que dificilmente tem acesso aos incontáveis festivais e mostras existentes no país) não vê nem cor de uma quantidade absurda de filmaços realizados aqui. Por isso aconselho: baixe filmes. Sim! As vídeo locadoras estão em extinção e a programação dos cinemas é focada nos blockbusters hollywoodianos e nas comédias capitaneadas pelo Globo Filmes, cheias de celebridades chatas e comediantes da TV e internet. A polícia não vai bater na sua porta se você baixar um filme pra ver em casa, baby! Vai por mim. Se puder alugar ou comprar, faça. Se não, mete bronca no download que Jesus perdoa.

Após o fim de seu casamento, Júnior (Marat Descartes) volta para a casa do pai (Antônio Fagundes, ótimo), onde uma jovem estudante de música (Sandy Leah – aquela que canta, irmã do Júnior e filha de Xororó) ocupa o quarto que pertencia a ele e o irmão. Ao revirar os cômodos do apartamento em momentos de tédio na ausência do pai, o rapaz encontra objetos que remetem a sua infância ao lado do irmão (internado numa instituição de tratamento psicológico) e a mãe (falecida). Aos poucos, Júnior se envereda pelo caminho sem volta que levou o irmão à loucura na investigação do mistério envolvendo sua mãe.

“Quando Eu Era Vivo” (primeiro longa do cineasta Marco Dutra em direção solo) é essencialmente, um filme de terror. Macabrão mesmo! Mas como toda (boa) obra do gênero, reflete sobre temas mais pessoais (aqui, são as mazelas familiares que assumem o papel central). O negócio é que tudo o que se vê na tela, é de embasbacar. Da direção de arte que transforma a casa onde praticamente todo o filme se passa, num personagem intrigante e assustador, passando pela fotografia de Ivo Lopes Araújo – fundamental na construção da atmosfera de tensão crescente –, ate à música dos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato (que conta com a colaboração do próprio Marco Dutra), ocupando um lugar de destaque no roteiro, o longa equilibra drama familiar e horror sobrenatural com sutileza e cuidado, numa narrativa que preza pelo desenvolvimento lento dos personagens e um andamento progressivo e cadenciado da trama, que culmina num final apavorante e bastante emocional.

Além das atuações exatas de Fagundes e Descartes, Sandy é extremamente bem aproveitada como cantora aqui (embora não faça feio mostrando seus dotes dramáticos). De resto, basta dizer que mesmo não sendo extraordinariamente original, a obra de Dutra tem personalidade e é de um esmero técnico impressionante. Cada coisa em seu lugar, trata-se de um “filme de gênero” absolutamente envolvente e infinitamente melhor do que mais da metade de tudo o que é feito pelo cinema americano nesse seguimento.

Enfim, corra atrás e veja sem medo. Ou melhor, com medo…

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