Dois Dias, Uma Noite

A indicação de Marion Cotillard ao Oscar de melhor atriz esse ano pelo filme dos irmãos Dardenne só foi considerada uma surpresa pela comunidade cinéfila e crítica, porque – familiarizados com a “bundamolice” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – todo mundo contava com o esquecimento da excepcional atriz francesa (vencedora da estatueta em 2008 por Piaf – Um Hino ao Amor), merecedora da indicação tanto pelo maravilhoso filme da dupla belga, como pelo belíssimo Era Uma Vez em Nova York de James Gray. Mas vez ou outra eles acertam, e em Dois Dias, Uma Noite (lançado por aqui oficialmente no começo de Fevereiro) Cotillard só não é maior que o filme, pois a pequenez e intimismo do longa são justamente os atributos que fazem dele uma obra-prima.

Em uma hora e meia de uma narrativa naturalista e sem arroubos estilísticos (onde a trilha sonora se ausenta e a montagem é de uma simplicidade franciscana), a câmera de Jean-Pierre e Luc acompanha Sandra (Cotillard em um estado de graça divina, numa atuação que é o cúmulo da naturalidade de imersão dramática – termo criado por mim na concepção desse texto, e com potencial para ser utilizado em escolas de atuação), mãe de duas crianças pequenas e funcionária de uma fábrica de médio porte, que, saindo de uma depressão severa, precisa lidar com a possibilidade de ser despedida do emprego caso seus colegas de trabalho não abdiquem de um bônus ao qual têm direito. O filme acompanha não só a via-crúcis de suas humilhantes visitas a cada um dos funcionários para tentar dissuadi-los a abrir mão do dinheiro extra, como também a pressão que isso exerce sobre seu frágil estado emocional durante os dois dias e uma noite desse processo.

Pode-se conjecturar a respeito das intenções mais amplas do roteiro dos Dardenne ao expor o absurdo da condição de desigualdade social ilustrada pela situação de Sandra (que engloba desde a falta de humanidade do patrão ao colocar seus funcionários para escolher entre um esperado acréscimo salarial e a permanência de uma colega com problemas de saúde, passando pelo próprio dilema moral desses personagens, até a luta da mulher em questão para manter a dignidade e o emprego, enquanto enfrenta a angústia inerente à depressão), mas ainda que tal abertura de escopo torne o filme mais pungente, é mesmo o microcosmo explorado sem maniqueísmo barato que faz de Dois Dias, Uma Noite tão relevante enquanto obra cinematográfica.

Em gestos mínimos, olhares profundos, fala sofrida e postura rendida, Cotillard dá vida à Sandra com o máximo de verdade que uma atuação é capaz de evocar, e enquanto a personagem lida com reações naturais de apoio e rejeição ao longo de sua inglória missão, segue para o fim de sua jornada tão incerta de sua resolução quanto nós.

O inesperado desfecho impressiona pela humanidade da mensagem que transmite sem qualquer pedantismo ou pieguice. Belo e devastador!

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