O poder do ridículo

Eu devia ter por volta dos cinco ou seis anos de idade quando sofri meu primeiro bullying. Veio de um menino, que resolveu me dizer que eu era tão branca que nunca devia ter visto Sol na vida. Foi engraçado para todos, exceto para mim, claro. Eu nunca tinha nem pensado na minha cor ou comparado ela às outras cores, mas fiquei triste e cheguei em casa contando com pesar o ocorrido para a minha mãe.

Acredito que eu esperava um colo, uma reafirmação do quão única e linda eu era. No lugar disso, ela gargalhou. Sim, minha mãe gargalhou e me disse “ele gostou de você, quer chamar a sua atenção…responda sem ficar chateada e eu tenho certeza de que vocês serão amigos”. Ela completou com “meninos são assim: às vezes se ofendem para tentar fazer uma amizade, porque não sabem exatamente como se aproximar de outra maneira” (o contexto pedia “meninos”, mas use o gênero que preferir para falar de todo e qualquer ser humano, ok?).

Quando vi minha mãe gargalhar eu me senti ridícula. Olha como se sentir ridículo é precioso: ela apequenou a minha crise com leveza. No dia seguinte, esperei o bullying. Ele veio, e ganhou uma resposta criativa. Não preciso nem dizer que foram poucas horas para fazer um novo amigo. E muitos anos o tendo por perto como um dos melhores amigos na escola.

O primeiro sucesso me trouxe outros momentos curiosos durante a vida. Aquela “garota que está te medindo” é a mesma que me emprestou o vestido para a festa, pouco tempo depois. O senhor rabugento da banca de jornal passou a ser o primeiro a reservar as edições da minha revista favorita, quando se sentiu aceito. E é tão fácil mudar a pseudo-realidade-cruel quando não julgamos só porque achamos que estamos sendo julgados.

Ou vai dizer que você nunca foi mal interpretado? Ninguém sabe agir com modos perfeitamente compreensíveis por todos, o tempo inteiro. Nin-guém. Nem eu e nem você. É preciso um pouco mais de tolerância para descobrir os verdadeiros momentos divertidos escondidos atrás do monótono cotidiano. Dê uma segunda chance ao primeiro olhar torto. À frase atravessada. Seu futuro melhor amigo pode ter esse jeito meio bobo mesmo, e vocês podem rir juntos sobre isso mais tarde.

Olhe firme com um sorriso sincero e descubra o que há por trás de alguém que levanta a guarda. Às vezes você encontra só medo. Outras vezes, carência. Tem gente que só está em outro momento, testando e aprendendo a se relacionar com o entorno. E pode acontecer de achar raridades: uma história de vida tão peculiar (por vezes sofrida) que te ensina mais do que uma dezena de livros. A gente só aprende a viajar longas distâncias, quando consegue compreender diferentes realidades aqui, bem próximas.

E se nada disso acontecer, juro, um momento torto não irá te diminuir. Mas se a gente enxergar o quão ridículo ele é (isso mesmo, do latim ridiculus: aquilo que é passível de riso), ele pode até ajudar a engrandecer. Vai perder o quê?

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