Fundação Ideia de Jerico

Por favor, olhe para os lados antes de começar a ler esse post: contarei um segredo. Fica cá, só entre nós.

O que eu tenho a dizer é íntimo, e devo admitir, não tão simples de explicar. O que passa se começou na adolescência, quando minha mãe me apresentou mulheres lindas e fortes como exemplo.

No auge da sensação patinho feio, conhecer mulheres livres, inteligentes, engraçadas, quebrando padrões, foi, e ainda é, um alento sem tamanho.

A essa altura você pode estar se perguntando se eu revelarei alguma preferência sexual, mas adianto que não é sobre isso o que digo. Alíás,  adorava quando essa pauta vinha à tona no Saia Justa e Mônica Waldvogel, Rita Lee, Marisa Orth e Fernanda Young gargalhavam dos cafonas que habitam o mundo.

Fernanda Young e Rita Lee me encantavam com o humor ácido e questionamentos profundos. Juntas, escreveram o Hino dos Malucos – e eu me senti representada.

Elas não sabiam, mas eram minhas melhores amigas. Então eu ouvia as músicas, lia os livros, assistia as séries. Sei falas completas de “Os Aspones” e “Os Normais” até hoje.

Eis que então vejo no Instagram um espaço de artes chamando para um encontro com Fernanda Young. Os dizeres eram confusos – falava sobre Fernanda ler um texto de Drummond, e no mesmo dia e local, dar espaço para que os participantes produzissem qualquer coisa a partir daquela leitura. Se você procurasse letras pequenas para entender “como assim qualquer coisa” ou “quem pode produzir isso que eles esperam Meu Deus”, encontraria apenas as palavras “anarquista” e “iconoclasta”.

Esse encontro daria início à Fundação Ideia de Jerico, em que ganharíamos carteirinhas e diplomas.

Achei que não era o tipo de coisa que a gente precisasse entender. Fui.

O que aconteceu naquele dia, até hoje, eu não saberia dizer se foi mesmo real. Poucas pessoas reunidas, silêncio e atenção. Muitos sorrisos e muito acolhimento. Uma imersão em palavras da línguas portuguesa e, o mais importante…uma pequena e silenciosa revolução. A arte nascendo, vagarosa e forte, pronta para iluminar tempos sombrios.

Saímos de lá ansiosos  pelo próximo encontro, dali um mês. Encontro esse, que você já deve saber, não aconteceu. Chorei por uma semana. Tentei recordar todas as frases que consegui dizer a tempo, quais eu tinha deixado para a próxima. Senti tudo aquilo que devemos sentir diante da morte: desde a vontade imensa de fazer acontecer tudo o que adiamos, até a total falta de senso humano em não aceitar de jeito nenhum, mesmo sabendo que nossa indignação não muda nada.

Fiz então, o que qualquer luto faz por nós – passei a acompanhar todos que viviam o mesmo que eu. Fiquei pensando em todos aqueles que viam sinais dela por todos os cantos e achei lindo essa ressignificação do caos.

Voltei milhões de vezes ao dia em que nos conhecemos, e lembrei da minha sensação de “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”.

MÁ QUE CARALHA QUE TIRARAM A MESTRE DAQUI, AGORA QUE EU ACHEI.

Chorei de novo e de novo e mais uma vez. Resolvi que ia transformar dor em palavras, mas travei. Então recebi um e-mail dizendo que meu blog tinha um novo comentário, e eu nem sabia que tinha um blog. Era esse, o Circo Dourado – eu achei que tinha perdido todo o conteúdo há três anos. Mas estava lá, intacto. Foi tanta alegria, que olhei para o calendário pra gravar esse dia de reencontro comigo mesma. Era 25 de setembro. O luto completava um mês.

Obrigada pelo sinal Fernanda, eu sabia que éramos amigas.

 

 

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