Sexta poesia

Toda sexta-feira, ofereço poemas, poesias, crônicas ou uma pequena dose literária para resgatar nossa alma de tanta realidade. Hoje é a vez de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Bernardo Soares, em um dos meus poemas favoritos.

Tenho dó dos pobres

Tenho dó dos pobres. E também tenho dó dos ricos. Tenho mais dó dos ricos, porque são mais infelizes. Quem é pobre pode julgar que, se deixasse de o ser, seria feliz. Quem é rico sabe que não há maneira de ser feliz.

Quem é pobre tem uma só preocupação, ou uma só preocupação principal — a pobreza. Quem é rico, como infelizmente não tem essa, tem que ter todas as outras. Nunca vi homem rico mais feliz que um pobre; a não ser que por felicidade se entenda aquilo que se pode comprar no alfaiate e no ourives, e comer-se num restaurante. Mas até este ponto de materialismo histórico não creio que vão os mesmos…

Os pobres são felizes: têm uma ilusão — crêem que o alfaiate, o ourives, o dono do restaurante caro são os dispensadores da felicidade. Crêem nisso. Os ricos são os ateus do alfaiate.

Heterônimo: Bernardo Soares

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