Empatia é quase amor

Puxa lá a cadeira e pegue um café, que hoje contarei uma história que aconteceu comigo há alguns meses.

Estava me locupletando na inércia de minha timeline do Facebook quando me deparo com a fotografia de dois moradores de rua irlandeses, com o celular nas mãos.

Uma amiga irlandesa compartilhou essas imagens de uma outra amiga e, ao perceber a força viral daquilo, já presumi: “Furto de celular no Sul de Dublin, também? Deve estar passando o alerta sobre o ocorrido na região”.

Veja só: li a imagem e rapidamente entendi que era o lado sul, região mais privilegiada da cidade e prioritariamente residencial. Um morador de rua com celular na mão? É furto. Só não é assalto a mão armada porque “estamos na Europa” (não concordo comigo, mas meu subconsciente joga um lixo preconceituoso à tona e eu tenho que aprender a lidar com essas sombras).

Pus me a ler. Como já sabido, a maioria dos moradores de rua daqui são dependentes químicos – e apesar de pessoas sem condições terem direito a moradia governamental, esses edifícios comunitários não aceitam drogados, o que faz com que esse pessoal fique pelas ruas mesmo. Todas as noites eles possuem o direito a dormir em camas de abrigos comunitários, mas é preciso ligar para uma central e pedir para que orientem em qual abrigo há camas disponíveis, como no Brasil.

post em questão contava a história da autora que caminhava por uma rua famosa daqui quando foi abordada pelo morador de rua. Ele pediu o celular emprestado, alegando que o dele estava sem bateria e precisava pedir uma cama para ele e outra para o amigo dele, que não tinha telefone.

Era uma noite realmente fria. A mulher se prontificou a ajudar, ligando para a central e pagando um cafe para cada um. Infelizmente os abrigos estavam lotados e levaram duas horas para achar uma única cama. O moço disse que sem o amigo ele não iria, preferia dormir na rua a deixá-lo sozinho no frio. Ela ficou com eles até garantirem um lugar menos gelado para enfrentar a madrugada de inverno.

Quando chegou em casa, desabafou no Facebook, cobrando as autoridades por não ter estrutura suficiente para abrigar os dois cidadãos irlandeses. Achou um absurdo eles esperarem duas horas por uma única cama. E foram tantos os que concordaram com ela, que nos comentários podíamos encontrar várias pessoas perguntando o local exato em que eles ficaram para levar cobertores e comida.

Ela não estava indignada porque ele era um drogado e por assim ser, merecia a rua naquela noite fria. Não mandou ele ir arranjar um emprego. Não estava enojada de ser abordada por um morador de rua. E, ao compartilhar o ocorrido, também não estava defendendo os direitos humanos desse pobre “homeless”. Porque ele não era um morador de rua. Ele era um cidadão irlandês, assim como ela. Ao optar pela rua, eles estavam compartilhando um espaço deles. Ao pedir a estrutura adequada, ela não estava sendo caridosa, ela estava brigando pela cidade em que ela quer morar e escolhendo para onde ela quer que vá o dinheiro do imposto que ela paga. A compreensão de que ele era dependente químico veio depois da compreensão de que ele era um ser humano pedindo auxilio. E ainda assim não os distanciou: a droga não é problema do viciado, é problema de uma sociedade.

E foi assim, amigos, que entendi que o poder político do cidadão não se limita ao voto e às caridades. Que não aceitemos uma sociedade menos evoluída do que a sociedade que gostaríamos de participar.

Foto de: Mishu Hassan

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s