Mari e as coisas da vida

Foi a ilustração de Kaatje Vermeire que me puxou para a história de Tine Mortier, ambas belgas. Em “Mari e as coisas da vida” senti que a escrita, somada à ilustração, ganha uma potência artística tão grande que, por vezes, acredito que livros para adulto deveriam manter essa junção, tão comum ao público infantil.

Mari é uma menina que adora brincar com sua avó, até que um dia, a avó adoece e Mari não entende direito como as coisas mudaram e agora a avó já não brinca mais. As imagens mostram um mundo de imaginação ao qual as duas pertencem, em uma cumplicidade que não abandona nem o leito do hospital.

Mari traduz as poucas palavras da vó. É a única que mantém as brincadeiras, apesar de tudo. Então o avô de Mari não se sente bem e morre. A menina conta a triste notícias para a avó, que pede para acariciar os cabelos do marido uma última vez.

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Apesar dos médicos negarem o pedido, a neta coloca a avó na cadeira de rodas e foge do hospital. A última cena do livro mostra as duas ao lado do caixão do avô, em uma imagem surpreendentemente bonita, em que os ensinamentos sobre a morte foram passados pelas gerações de uma maneira real e poética. Chorei e a minha primeira reação ao fim da história foi pensar que soaria impróprio para crianças de 5 a 8 anos (faixa de recomendação da leitura). Mas em um segundo momento pensei que talvez não existisse jeito mais bonito de mostrar o ciclo da vida através de um livro, para quem não quer rodeios, metáforas ou ilusões – apenas tornando explícita nossa natureza.

Nos últimos anos passei por algumas perdas significativas e não me tornei melhor com a prática dos lutos. São sempre como os primeiros. Mas recentemente percebi que os alentos me doíam mais, pois sempre deixam uma brecha para questionamentos sem fim. Então as perguntas arrastavam a dor por mais tempo. Quando percebi que o óbvio poderia me bastar (afinal, todos sabemos do fim inevitável), o acesso à cura se tornou mais simples.

Me convenci de que “Mari e as coisas da vida” fala sobre o tema da morte de um jeito que gosto de ouvir: a vida humana é tão bonita até em suas durezas, que a arte e a poesia são só consequências de tanta realidade.

 

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