Cuspe na testa

Mãe tem goteira no meio da testa. Todo resquício de saliva atirado para cima durante a vida, depois do nascimento, desaba lentamente no alvo.

Há fases em que a goteira é mensal. “Jamais vou oferecer chupeta” – trinta dias se passam e – PLÁ. A mãe novata ainda está desavisada, passa a mão na testa estranhando o barulho.
Conforme a criança cresce, parece que o vazamento fica mais frequente, quase diário.
“Não vai comer açúcar”
“Não vai ver nenhuma tela”
“Não tolero birras nem crianças mimadas”
No auge do dois anos de idade, a goteira pode aparecer de hora em hora, como a Tele Sena do Baú da Felicidade.
Mas é mais ou menos nessa altura que a gente vai descobrindo a sua real função. Não é nos contradizer, só para envergonhar, claro que não!

Algo que cai do céu bem no meio da testa, não cai ali à toa. Gota por gota, tal qual um colírio, deixa tudo mais nítido. Mais vivo. Afrouxa as gravatas. Descalça os pés. Nos mostra que a vida de verdade, aquela que vale à pena ser vivida, não combinada com nossa severidade pragmática. A gente ganha um certo gingado. Uma profundidade na testa, traz malemolência nos quadris. É como se o mundo girasse e a gente rodasse com a Lusitana. A ficha cai e traz com ela uma sabedoria essencial: nos lembra que enquanto vemos nossos filhos crescerem, eles também nos assistem crescer.

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